domingo, 28 de dezembro de 2008

Presídio



Tenho séculos submersos no teu corpo.
Apalpo a trovoada despida no olhar,
há aves que voam rente ao tempo cruel
relampejando geadas inesperadas.
Há abismos insurrectos
a transbordar champanhe nocturno.
Bebo o sorriso afogado
em luminosos cálices de trevas,
escuto chicotes ungindo labaredas
nos canais sombrios da alma.


Tenho séculos submersos no teu corpo.
Não sei como selar a decepção
que arde nos sulcos do desespero.
Colocaste-me grades na boca,
é insuportável o sangue descalço
que dança nuvens na garganta.
Trouxeste nos gestos ogivas lancinantes
a transplantar milénios de abandono.
Desmorono-me em silêncio
perseguido pelo assédio atómico
que flutua no encanto.

Anoitece em mim,
surtos desolados
escavam neblina na eternidade,
tudo grita o fim.

Alberto Pereira
Poema do livro "O áspero hálito do amanhã"

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Guernica



O mundo desaba dentro dos homens,
voam aviões no olhar,
gritam noites no peito.
Do céu caem guilhotinas,
o estrume metálico fede pústulas de pólvora
sobre a sumptuosa desgraça.
Há abismos detonados pelos corpos fora.


O mundo desaba dentro dos homens,
o acne das bombas
vai calafetando a morte no chão.
As mães com os membros orlados no exílio
resvalam crianças no desespero,
tocam sinos nas rugas.


Guernica,
em ti descarrilam sonhos translúcidos
em carruagens de sangue
e só os ditadores encalhados na cinza
toureiam o dilúvio.

Poema do livro "O áspero hálito do amanhã"
de Alberto Pereira

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Lançamento do livro "O áspero hálito do amanhã"


Decorreu no sábado o lançamento do meu livro "O áspero hálito do amanhã", a que compareceram cerca de 100 pessoas, facto pouco usual quando se trata de poesia.
A todos um muito obrigado.

Aqui fica o endereço para verem a excelente reportagem fotográfica feita por António Rodrigues

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Lançamento do livro "Bicicletas para memórias & invenções 4" na Casa Fernando Pessoa



Decorreu ontem na Casa Fernando Pessoa o lançamento do livro "Bicicletas para memórias & invenções 4", colectânea de contos dos alunos da compainhia do eu, organizada pelo poeta Pedro Sena-Lino, em que colaborou toda uma equipa de que fazem parte Alexandre Nave, Álvaro Seiça Neves, Estela Baptista Costa, Maria João Lopes Fernandes e outros.


Autores:

Teresa Teixeira Lopo
Nuno Natividade
Irene Crespo
Rita Saldanha
Pedro Braz Teixeira
Alberto Pereira
Manuel Alonso
Susana Cabaço
Madalena Dalage
Alexandra Lisboa
Francisco Ribeiro Rosa

A todos muitos parabéns pela forma agradável como decorreu o evento,
onde a cumplicidade, amizade e paixão literária que nos une foi evidente.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008



Aqui fica o convite para o lançamento do livro de contos "Bicicletas para Memórias e Invenções IV", no qual participo com o conto "Inverno na Alma". Será apresentado pelo poeta Pedro Sena-Lino, no dia 3 de Dezembro na Casa Fernando Pessoa às 19h15m.


Dia 13 de Dezembro de 2008
Local: Centro Cultural do Serpro - Lapa - RJ
Em Almoço de Confraternização promovido pela Associação dos Ex-alunos do Instituto Benjamin Constant, será feita a entrega dos 50 cd´s do Projeto À Luz da leitura como presente de final de ano aos Deficientes Visuais. Os cd's terão o formato de página da WEB, contendo na Home Page um texto alusivo ao Projeto, texto da Instituição, Relação dos Poetas/escritores participantes em forma de link (todo o conteúdo estará no próprio cd).
Ao clicar no nome de cada um dos Poetas/participantes, os usuários navegarão até a página do respectivo autor onde terão acesso aos Dados do Autor (com link para as respectivas páginas e/ou blog na internet), poemas falados e na forma de texto.
Poetas/escritores participantes:
1- Abigail
2- Alberto Pereira
3- Eliana Mora
4- Fabio Rocha
5- Graça Pires
6- Maria Carvalhosa
7- Mariana Botelho
8- Mercedes Lorenzo
9- Paulo de Carvalho
10- Pavitra
obs 1: O Projeto À Luz da leitura é SEM FINS LUCRATIVOS e NÃO INSTITUCIONAL.obs 2: O formato do projeto em cd foi desenvolvido por Paulo de Carvalho.

No endereço
http://psdecarvalho.multiply.com/calendar/item/10009

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Lançamento do livro "O Áspero Hálito do Amanhã"



A 6 de Dezembro às 18.30, será apresentado em Lisboa no auditório sito ao Nº 56 no Campo Grande, a obra poética "O Áspero Hálito do Amanhã" da minha autoria, com prefácio de Xavier Zarco.
Fica desde já o convite a todos os que queiram estar presentes e em particular aos que gostam de poesia.
Obra e autor serão apresentados pelo emérito poeta Firmino Mendes.
Para mais informações consultar http://ediumeditores.wordpress.com/ e abrir próximos lançamentos.
Até breve.

domingo, 12 de outubro de 2008

Mulheres



Cai a tarde,
do fundo da alma
descem corpos ruborizados de Primavera.
Fermentados de utopia
vagueiam na insónia da imaginação
e sentam-se na véspera do impossível.
Corpos algemados de ternura
que despejam sobre as rugas dos dias
poemas compilados de coragem.
Esbracejam de fantasia
como se todas as dores fossem infinitamente nada
e debruçadas sobre o desassossego
respiram o deslumbramento de cada instante.
São rostos de eternidade
aguardando no incógnito ventre dos sonhos
um beijo do desconhecido.
São,
corajosamente mulheres.

Alberto Pereira

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Loucura


Quero-te loucura,
és a abrupta harmonia na quietude do imperceptível,
orgasmo de silêncio a cintilar nos alvéolos do instante.
Porque me foges
quando na orla intemporal do teu cataclismo
há uma apoteose inesgotável de existência.

Vem loucura,
iça-me para a integridade vacilante da alucinação,
rouba-me a imutável tragédia do deslumbramento.
Exala-me de ânsia
para que possa naufragar
no imenso extravio da inquietação,
no fulgor translúcido do desconhecido.

Eu não quero mais andar vendado
por este caos decadente
que emerge no decalque original do vazio.

Deixa-me deambular
na indelével relutância do pressentimento,
desabar na irrequieta limpidez entre o nada e o nada.

Poema - Alberto Pereira

Video/Voz - Zélia Santos


quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Adeus



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Bairro de lata



No fim de um estreito carreiro desembarca um mundo perdido.
Uma floresta de tábuas eriçadas que se espreguiçam na miséria, dão abrigo aos homens mudos de sonhos.
O horizonte merenda a arquitectura desordenada dos telhados de zinco que cobrem a madeira nua que treme de podridão. Em cima deles um sem número de inutilidades; pneus, tijolos e lixo reciclado pelas mentes que necessitam de guardar alguma coisa para enganar a desilusão.
Não se ouvem pássaros, apenas gritos e rumores das mulheres que dissecam cada pormenor da vida alheia. Estas não usam cremes, os seus cheiros são meteorológicos, pois o pouco dinheiro que lhes resta serve para saciar a fome à realidade.
As crianças correm, são “livres”, embora habituadas a sentir o álcool enfurecer as mãos dos pais sem razão plausível. Joga-se à bola, ao berlinde e às escondidas. Realizam-se os jogos olímpicos várias vezes por mês, com prémios de cortiça e taças feitas com garrafas de óleo, cabos de vassoura e pratas retiradas dos maços de tabaco já consumidos.
Os homens embriagam os dias de esquecimento, os filhos com a infância engarrafada lavam o futuro na revolta.
Aqui abrem-se as portas à memória, o tempo acende o sono dos sorrisos e a cada dia que passa nascem ilhas.

domingo, 31 de agosto de 2008

Concurso de Poesia 2008 "Ora vejamos"



Leíria - 23/08/2008

O meu agradecimento a todos os que tiveram presentes no almoço convívio onde foram entregues os prémios do Concurso de Poesia 2008 do "Ora vejamos".
Apaixonadas pela escrita reuniram-se serenamente, para mostrar que neste país com ou sem apoios, ainda existem pessoas com espírito altruísta (caso de Henrique Sousa e seus pares), que derrubam dificuldades, divulgam "Poetas", "Escritores" e outros que gostam de escrever, aos quais as editoras votadas a uma prespectiva meramente lucrativa, nem sequer ousam dar um minuto de atenção.

As palavras continuarão a ser a liberdade de um tempo estrangulado,
o grito audível dos que querem escrever com o coração.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Livro "Poemas Sem Fronteiras"




Olá a todos, já está à venda na net (http://www.lulu.com/content/3113719) o livro relativo ao Concurso de Poesia 2008 do site "Ora Vejamos", no qual participei.

Comprem e ajudem a divulgar a poesia que nasce fora dos circuitos editoriais habituais.

sábado, 16 de agosto de 2008

Eu sou assim


Já existi sem saber,
longe de mim.

Alberto Pereira

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Sobre um poema



Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,invade as órbitas,
a face amorfa das paredes, a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,a redonda
e livre harmonia do mundo.

- Embaixo o instrumento perplexo
ignora a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Retiro de Escrita



Na tarde sufocante, o ar estrangulado percorre as vielas brancas de Serpa.
O céu está inflamado por uma fervente nostalgia de ouro, as planícies intermináveis fulguram beleza na quietude do dia e só seis "loucos" guerreiros seguem o seu Mestre.
Sentam-se frente a imaculada brancura das folhas, puxam canetas, despem a imaginação.
Aos primeiros alvores da fantasia seguem as metáforas mágicas do homem que os guia.
Clamam ilusões, fervilham utopias, crescem fantasmas, mascaram-se infernos, deambulam paraísos.
Há Verão em todos os corpos, corre o fascínio e só as palavras segredam que chegámos à eternidade.

Mestre - Pedro Sena-Lino

Guerreiros - Alberto Pereira/Susana Cabaço/Cristina Coroa/Francisco Rosa/
Manuel Alonso/Rita Saldanha

Obrigado a todos por estes 2 dias maravilhosos passados nesse refúgio rural que se chama Casa de Serpa.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Poeta



O poeta é um mundo insubornável
que paga em melancolia
a arquitectura ardente da transgressão.

Alberto Pereira

domingo, 15 de junho de 2008

POEISIS XVI



Foi lançada no passado dia 14 de Junho no Auditório Carlos Paredes em Benfica, a Antologia Poética Poiesis XVI (58 autores), Editorial Minerva, em que tive o prazer de participar com 4 poemas (Fingidos/ Equação de ti/ Loucura/O último parágrafo do encanto).
São projectos como este, que embora circulando num meio restrito, vão fazendo crescer a motivação de quem na verdade ama a escrita e se depara com os obscuros labirintos que rodeiam os meandros da edição.
Por tudo isto uma palavra de apreço para todos os que continuam a insinuar-se corajosamente, sem temer a pouca divulgação e a critica de que são alvo.
Parabéns a todos os co-autores da obra e também ao Ângelo Rodrigues o mentor da mesma.


Alberto Pereira

terça-feira, 20 de maio de 2008

Concurso de Poesia 2008 "Ora vejamos"



POEMAS VENCEDORES

1.º Prémio

Meia-noite na Alma
(79 pontos)

Alberto Pereira, Portugal



2.º Prémio

A falta
(76 pontos)

Maria de Lourdes Barbosa Oliveira Didi, Brasil



3.º Prémio

Minueto a uma Dama de Cravos
(72 pontos)

sábado, 10 de maio de 2008

Fascínio



Dá-me um orgasmo verde
que me encalhe de alucinação
junto à utopia do teu corpo.


Alberto Pereira

sábado, 3 de maio de 2008

Existência



Somos luzes inertes acesas de trevas
em dias abortados de existência
aguardando na posição fetal da fantasia
uma alma nómada grávida de utopia.


Alberto Pereira

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Abismo



Nas garras ímpias da ferocidade
espreito a falésia escarpada de sonhos desfeitos
e acaricio as rugas do abismo.

Alberto Pereira

sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 de Abril


O dia em que o cheiro fétido da ditadura
sucumbiu ao aroma perene dos cravos.

Não gostaria de ver morrer a liberdade
nas mãos da incongruência,
pois às vezes fazemos dela
uma luxúria desprovida de senso
onde tudo é permitido.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Sul



O horizonte é uma ilusão sem fim e as nuvens emolduradas no céu
oásis perdidos no deserto azul. Tudo é plano, de um castanho que se perde na imensidão do espaço, permeado aqui e ali, por um verde envergonhado. O mundo parece ter pousado num local onde qualquer relevo é uma afronta ao manto que abençoa a exactidão deste chão.
Há desalento fingido no árido abandono da paisagem que se estende no mar sereno da planície. Um mar onde a água é uma ilusão que os lábios da terra poucas vezes tocam. Lê-se na face do infinito que o sol tórrido, votou este recanto à febre latente da solidão.
Os animais no meio dos campos repousam de forma tranquila, resignados à fome que o hábito os ensinou a suportar. Cabisbaixos, ruminam a erva inexistente; sonham com o verde que nunca viram e que apenas conhecem dos rumores que a escassa brisa arrasta quando não fica ancorada no calor.
Ao início da tarde, respira-se um ar que traz um longo lamento ao castanho imenso que ferve debaixo do olhar atento do céu. É corajosa a natureza que recebe este bafo que a sufoca, sem que um murmúrio irado se ouça. No fim do dia quando a tarde começa a esmorecer e espalha já uma claridade forçada sobre o horizonte, há um amontoado de sonhos que vagueiam pelo jardim do crepúsculo.
Quem terá concebido este sonho perfeito no coração do vazio?

Alberto Pereira

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Desencanto


Cansei-me de ti.
Entristece-me perder o que nunca existiu,
mas não quero permanecer no que existe.
Dentro das muralhas da tua beleza
corre um rio de egoísmo
que já não consigo suportar.
Destruíste as margens da tolerância
e as águas começam já a inundar-me a dignidade.
Quem despejou esta arrogância na tua corrente?
És uma enxurrada violenta
que desagua no mar poluído da insensatez.
Tu, encanto interrompido pelo desnudar dos dias
que desenhou uma fé sombria nos meus sonhos
e incendiou de dor o horizonte.
Porque deixaste que o desejo nefasto do teu orgulho
secasse o rio de ilusão que me enchia a alma.
Procuro ainda na essência nocturna dos teus lábios
um folêgo de sobrevivência que faça palpitar
o esplendor da tua imagem.
Caminho neste Outono embriagado de desilusão
e ouço a tua voz desfalecer no vento.
Sigo sedento pelo labirinto íntimo de êxtases perdidos
que vivem encalhados no fundo da minha memória.
Mergulho no brilho pálido da tua inocência
e nas águas anémicas de alegria
aguardo uma transfusão que faça circular a eternidade.

Alberto Pereira

Intemporal(conto & poesia)
Editorial Minerva

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Olá, este é o nascimento do blog "Murmúrios da Utopia", um espaço que crio para partilhar inquietações, impossiveis e intemporalidades com os outros e comigo próprio.
Talvez o caminho do desconhecido seja a nitidez absoluta para avançarmos para a utopia, pois a ilusão é apenas um estado prematuro de lucidez criticado pela realidade engelhada, mas não uma impossibilidade. A persistência fecunda sempre os sonhos, embora hajam espaços de tempo em que a esterilidade dos dias adia a gravidez anunciada de quem sabe suportar o abraço da imprevisibilidade.

Aqui fica uma sugestão de leitura:
O livro Intemporal (conto & poesia) 20 autores da Editorial Minerva, no qual tive o prazer de participar.