terça-feira, 7 de dezembro de 2010

UM PRECIPÍCIO A QUE QUEREMOS PERTENCER -POEMAS DITOS 8



Episódio 8

Mário Cesariny - Queria de ti um país

"queria de ti um país de bondade e de bruma
 queria de ti o mar de uma rosa de espuma!"

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Agenda do Eu



Para os interessados, aqui fica uma sugestão de Natal em que participo;
Agenda da Companhia do Eu.

Com textos dos alunos

2011

Sara Rodrigues, Laura Avelar Ferreira, Rodrigo Miquelino, João Cardona,
Josiane Guiraud, Chantal Guilhonato, Cristina Vieira,
Patrícia Guerreiro Nunes, Manuel Alonso, Rita Saldanha,
Sebastião Salgado, Paula Rancon.

2012

Joaquim Pedro Lampreia, Claudia Brabetz Cameira, Peter Janson,
Frederico Magalhães, Alberto Pereira, Susana Cabaço, P. Alcântara,
Paula Almeida, Dário Sopleen, Patrícia Ferraz, Rui Santos,
Rui Pedro Rebelo, Joana Koehler.

À venda na Companhia do Eu - Lisboa e Porto

Encomendas:

companhiadoeu@gmail.com
companhiadoeu.porto@gmail.com

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Livraria Wook - "O áspero hálito do amanhã" de Alberto Pereira



O livro "O áspero hálito do amanhã" de Alberto Pereira, já em 2ª edição, pode agora ser adquirido na livraria Wook a um excelente preço. Durante a campanha de Natal, ganha ainda um vale com 50% do valor do mesmo.

http://www.wook.pt/ficha/o-aspero-halito-do-amanha-2-edicao/a/id/10281127


sábado, 20 de novembro de 2010

21º Concurso de Contos Paulo Leminski



O português Alberto Pereira, foi um dos 40 finalistas do Concurso Paulo Leminski 2010, Paraná - Brasil.
Esta edição foi ganha por Maria Adelaide de Amorim Oliveira do Rio de Janeiro, com o trabalho, “Clarice na torre de cristal”.

Mensagem da organização aos finalistas:

"A Comissão Organizadora lhe parabeniza por seu conto nesta 21ª edição do Concurso de Conto Paulo Leminski, pois o mesmo ficou entre os 40 finalistas selecionados, queremos ressaltar que neste ano tivemos uma participação de 794 contos inscritos pela fundamental e expressiva parcela de talento e criatividade emprestaram ao evento. Escrever não é fácil. Clarice Lispector comparou certa vez o ato de escrever à árdua tarefa de quebrar rochas; por isso nós da Comissão Organizadora queremos em nome da Prefeitura do Município de Toledo e Unioeste cumprimentar as principais estrelas deste projeto os participantes que enriquecem ano a ano o nosso concurso, compartilhando através de suas narrativas percepções de mundo, vida e aflições cotidianas. É por meio da leitura dos trabalhos inscritos, nos aproximamos de muitas pessoas. A coordenação do evento, desde o princípio, tem conduzido os trabalhos com dedicação na preservação da transparência no julgamento das obras. Tem tomado o grande cuidado de que os contos sejam julgados unicamente pela sua qualidade e mérito literário, sem que nenhuma informação sobre a autoria chegue à banca que julga os trabalhos. Para tanto, dados referentes às obras – autores, procedência, titulação, etc – somente são divulgados após o registro por escrito do resultado de cada evento. E sempre temos tido a postura de aceitação das decisões tomadas pela Comissão Julgadora. Contamos com sua participação nas próximas edições e continue escrevendo e participando de eventos literários, pois a cada edição o que nos motiva a dar continuidade ao evento é a participação dos escritores de todos os lugares do Brasil e também de alguns do exterior, acreditando que a literatura é possível, tornando-se assim os verdadeiros autores do Concurso."

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

DELÍRIOS DE UM MERGULHO AFOGADO



É incrível como nos tornamos egoístas. Como o que foi tudo, passa a ser nada, ou muito pouco. Como a atenção que damos às pessoas, mesmo que doentes, é um picar de ponto de quando em vez. Como o que foi amor, passa com a rapidez de um jogo qualquer. Como as palavras que se disseram e as lágrimas que aconteceram, parecem não encaixar em nós. Assusta-me este mergulho afogado, em que aquilo em que acreditei já não sabe nadar. Foram apenas delírios de uma mente pródiga em fantasia.
Houve um tempo em que tudo era extraordinário, mas o que ainda hoje pago por essa ilusão, tem o peso de muitas lâminas.

Alberto Pereira

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Novo livro de Pedro Sena-Lino



Pedro Sena-Lino tem um novo livro, editado pela Porto Editora.
"A minha vida num livro" é o título que desafia o leitor a escrever-se.

«Haverá no mundo narrativa mais essencial do que a nossa? Como uma longa carta pessoal e transmissível, contar a história da nossa vida é refazê-la, é tomar posse da própria existência. O mundo está construído sobre narrativas, muitas delas mais antigas do que a escrita, e a autobiografia é a melhor arma possível enquanto processo de auto-conhecimento e de alargamento dos recursos da escrita.
Concebido para quem tem já hábitos criativos, mas também para quem deseja embarcar neste processo de auto-descoberta através da escrita, este livro proporciona momentos de reflexão e exercício, com vista à iniciação neste género com as raízes perdidas no tempo»

A obra terá uma apresentação em Lisboa (17 de Novembro, na Livraria Bertrand do Chiado, às 18h30) e no Porto (29 de Novembro, na FNAC de Santa Catarina, às 18h30).

Pedro Sena-Lino nasceu na Páscoa de 1977. Poeta, com oito livros de poesia publicados, dos quais se destacam deste lado da morte ninguém responde (2005, reed. 2008), zona de perda – livro de albas (2006), angstraße (2010). Em 2010, foi editada uma antologia da sua poesia, material angústia (2010, com posfácio de Ludovic Heyraud). Está traduzido para Alemão, Croata, Francês e Japonês.
Ficcionista, publicou o livro de contos Museu de História Sobrenatural (2007) e o romance histórico 333 (2009). Coordenou três colectâneas de contos na Porto Editora, Contos Policiais, Contos de Vampiros e Princesas, Príncipes, Fadas e Piratas com Problemas.
É doutorando em Literatura Feminina do Século XVII, com uma tese sobre Feliciana de Milão. Professor de escrita criativa e autobiografia desde 2000, orientou centenas de acções de formação em Portugal e na Europa. Fundou em 2005 a Companhia do Eu, escola de Escrita Criativa, de que é director. Em 2007 publicou Criative-se – Um Manual de Escrita Criativa, reeditado pela Porto Editora com o título Curso de Escrita Criativa I – Criative-se (2008, reeditado em 2009), a que se seguiu Curso de Escrita Criativa II – Uma Costela de Quem?

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

UM PRECIPÍCIO A QUE QUEREMOS PERTENCER - POEMAS DITOS 7



Episódio 7

José Régio - Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

UM PRECIPÍCIO A QUE QUEREMOS PERTENCER - POEMAS DITOS 6



Episódio 6

Herberto Helder - No sorriso louco das mães


No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e orgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo.
São silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos. Porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudez de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado
por dentro do amor.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

UM PRECIPÍCIO A QUE QUEREMOS PERTENCER - POEMAS DITOS



Episódio 5

Pablo Neruda - Inclinado en las tardes


INCLINADO NAS TARDES

Inclinado nas tardes lanço as minhas tristes redes
aos teus olhos oceânicos.

Ali se estira e arde na mais alta fogueira
a minha solidão que esbraceja como um náufrago.

Faço rubros sinais sobre os teus olhos ausentes
que ondeiam como o mar à beira dum farol.

Somente guardas trevas, fêmea distante e minha,
do teu olhar emerge às vezes o litoral do espanto.

Inclinado nas tardes deito as minhas tristes redes
a esse mar que sacode os teus olhos oceânicos.

Os pássaros nocturnos debicam as primeiras estrelas
que cintilam como a minha alma quando te amo.

Galopa a noite na sua égua sombria
derramando espigas azuis por sobre o campo.


Pablo Neruda

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

"LIVRO" DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO




"A mãe pousou o LIVRO nas mãos do filho".

É desta forma que começa o novo romance de José Luís Peixoto.
Frase que é um horizonte onde nos aguardam personagens inesquecíveis.

Assim aconteceu em:

NENHUM OLHAR
"Hoje o tempo não me enganou."

UMA CASA NA ESCURIDÃO
"Era uma vez o fim da tarde."

CEMITÉRIO DE PIANOS
"Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer."

sábado, 31 de julho de 2010

Alberto Pereira "O áspero hálito do amanhã"



Aqui fica o book-trailer relativo à 2ª edição do livro, "O áspero hálito do amanhã", de Alberto Pereira.
Publicado a primeira vez em Novembro de 2008, pela Edium Editores, saiu agora com uma nova capa, em Junho de 2010.

Prefácio de Xavier Zarco

Este “O áspero hálito do amanhã”, que tem agora entre mãos, apresenta-se estruturado sob três ciclos autónomos: “Dói-me a utopia”, “Arquipélago da loucura” e “Mordem pincéis nas palavras”.

Mas esta aparência autónoma é exactamente isso: meramente aparente. É uma ilusão elaborada como hipótese de caminho, de uma via a seguir no processo criativo. Uma demanda em que o criador se veste como usufruidor da criação artística para, posteriormente, proceder à recriação: erguer dentro de um corpo um corpo outro.

Talvez por isso Alberto Pereira tenha escolhido, como epígrafe a este seu volume, um dístico de Pedro Sena-Lino onde este menciona:

Não somos feitos de pele,
somos feitos de feridas.

algo que nos abre o corpo, que nos incita ao doloroso processo da indagação. Essa dor presente logo no título do primeiro movimento: “Dói-me a utopia”.

Mas que dor é esta que a ferida em nós desperta?, é, na minha leitura, a dor essencial vista como purificadora da oficina para que o processo criativo se possa iniciar.

Não sei como dizer-me que és um hemisfério de desejo
afogado na nudez da memória

Pelo que a ferida de que somos feitos radica no centro de nós, a nossa própria memória, espaço privilegiado para a edificação da obra sentida como “hemisfério de desejo”.

No entanto, não basta preparar o espaço e deter a consciência da possibilidade do erigir em obra o que em si, “na nudez da memória”, se intui existir. Há portanto que possuir os instrumentos e a estes atribuir as funções necessárias para dar continuidade ao processo criativo.

Surge-nos então o “Arquipélago da loucura”, conjunto de corpos, como a própria palavra arquipélago indicia, cada um com as suas especificidades, mas que formam um todo.

Mas este é um todo em mutação, onde “a abrupta harmonia na quietude do imperceptível”, que se descobre quando “O tempo acende o sono dos sorrisos e a cada dia que passa nascem ilhas”, novos artefactos porque novas são as necessidades para o desvelar da obra, é um arquipélago que cresce a cada passo sob o olhar atónito do criador.

Há a oficina e os instrumentos e a obra surge no derradeiro movimento: “Mordem pincéis nas palavras”. O que aí leio é um contínuo diálogo, quase intertextual com os mais diversos quadros, imagens que foram reavivadas, resgatadas à memória.

Aí Alberto Pereira lança mão ao que elaborou anteriormente para nos trazer uma partilha, não de meras impressões, mas, tal como mencionei, do que é fruto de um intenso diálogo com o objecto de arte, o que desta existia em si e do seu próprio contexto.

Um criador, que assume a função da fruição, do outro em si, para erguer, recriar e nos brindar com este “Áspero hálito do amanhã”.



Para adquirir o livro basta ir a:

http://www.ediumeditores.org

terça-feira, 13 de julho de 2010

UM PRECIPÍCIO A QUE QUEREMOS PERTENCER - POEMAS DITOS



Episódio 4

Eugénio de Andrade - Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

UM PRECIPÍCIO A QUE QUEREMOS PERTENCER - POEMAS DITOS 3



Episódio 3

Al Berto - Há-de flutuar uma cidade no crepusculo da vida

Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

quarta-feira, 26 de maio de 2010

LANÇAMENTO DO LIVRO, "MATERIAL ANGÚSTIA" DE PEDRO SENA-LINO




Será lançado hoje, 26 de Maio, um volume que selecciona
33 poemas do poeta Pedro Sena-Lino. É editado pela Cosmorama,
com o título "Material Angústia".
Tem posfácio de Ludovic Heyraud, professor em Montpellier.
Para quem quiser estar presente, o lançamento é às 19h, na Casa Museu Anastácio Gonçalves, na Av. 5 de Outubro.

terça-feira, 25 de maio de 2010

ALBERTO PEREIRA - AFINADOR DE NUVENS_0002.wmv




Aqui fica o excelente trabalho de Zélia Santos,
que mais uma vez teve a generosidade de emprestar
a sua voz às minhas palavras.

O poema "Afinador de Nuvens", foi premiado com o 3º lugar
no Concurso Sepé Tiaraju de Poesia Ibero-Americana em 2009,
entre 3027 poemas inscritos de 26 países.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

UM PRECIPÍCIO A QUE QUEREMOS PERTENCER - POEMAS DITOS - 2




Episódio 2


Mário Cesariny/Navio de espelhos


O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ála
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo


Mário Cesariny

ENTREVISTA A ALBERTO PEREIRA




SOMBRAS COMUNS
Entrevista a Alberto Pereira


Por Carmen Ezequiel
em exclusivo para o Palavra Fiandeira

Para ler em

http://palavrafiandeira.blogspot.com/2010/05/sombras-comuns-entrevista-alberto.html

ou ir directamente a Palavra Fiandeira Nº 29 (via google)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

UM PRECIPÍCIO A QUE QUEREMOS PERTENCER - POEMAS DITOS



Herberto Helder / Minha cabeça´

Episódio 1

Um precipício a que queremos pertencer, será uma série
de poemas em vídeo, onde seremos alvejados pelo
poder das palavras.
O imaginário a gritar sobre o mundo.

domingo, 9 de maio de 2010

A PAISAGEM NO HOMEM


Pintura de
Mari Lopes, 1999
"Homem Lendo o Jornal",2m X 1m50, têmpera acrílica sobre tela
Acervo da TV Cultura-SP, Brasil


A PAISAGEM NO HOMEM

O homem sentado na cadeira estava sereno.
Tinha a face avermelhada e o cabelo esquecido,
não por vontade própria,
mas porque os dias lhe atraiçoaram o pente.
O pente não tinha razões para tomar anti-depressivos,
porque nos dois lados da cabeça sobravam ainda
cabelos brancos.
Os cabelos tinham a cor da idade.
Os olhos precisavam de óculos para encontrar o mundo.
O homem tinha uma aliança na mão esquerda
e os dedos pequenos.
Os dedos da mão direita também eram pequenos
e estavam apoiados no sofá.
As notícias entravam pelas lentes
para encontrar os olhos.
Os olhos gostavam do que viam,
porque os lábios deixavam acontecer
um sorriso leve.
O homem não sorria
porque o campo à sua frente era verde
e tinha árvores floridas.
Mas a paisagem imitava o homem,
porque ambos estavam serenos.

Alberto Pereira

sexta-feira, 23 de abril de 2010

esta depressão que me anima



João Aguardela continua vivo.

Para que o esquecimento não chegue, foi lançado ontem o livro que
retrata o universo d’A Naifa visto de dentro e de fora -
os poemas que deram origem às canções dos três discos e as obras
gráficas que fizeram as capas; fotografias de mais de uma centena
de espectáculos e os testemunhos do público que, em muitos casos,
criou com a banda laços afectivos que se prolongaram muito para
além do momento dos concertos.
O dvd contém um concerto, gravado na digressão 2008 e um
documentário produzido em 2006.

Só assim se respeitam os dias dos que fazem da utopia um lugar que acontece.

segunda-feira, 22 de março de 2010

CARTA À INFÂNCIA - Neste país, só o Nuno Markl me compreende



Neste país, só o Nuno Markl me compreende.
Eu que já não podia falar do Tom Sawyer com ninguém. Eu que sou obrigado a almoçar aos fins de semana sem a companhia dos meus amigos do Verão Azul.
Não sabes a tormenta que é passear no jardim perto da minha casa, onde os cães só têm nomes de pessoas. Agora Nuno, que falaste do Dartacão, herói canídeo que nunca consegui apagar da memória, obrigado. Quando vim para aqui morar, senti que estava a enlouquecer, até o cão do vizinho tinha o nome com que os meus pais me baptizaram.




Neste país, só o Nuno Markl me compreende.
Como era bom saltar os muros para "roubar" fruta em quintal alheio.
Jogar ao Bate-pé para aprender os primeiros beijos.
Nuno, lembras-te a loucura de descer uma rua íngreme sentado num carro de esferas. Nós a segurar um cordel, como se fossemos montados num cavalo e a ventania no rosto a aumentar à velocidade do quadrúpede.
Era um tempo de magia, sim, porque as feridas que as brincadeiras ofereciam ao corpo não doíam.
A infância tinha pressa de descobrir coisas novas.

Nuno é tão bom ser um trintão com uma infância que ainda vive.

P.S - Um abraço de quem gostava de mergulhar nas águas lodosas de uma doca, nas tardes em que o Verão não deixava pensar que existiam doenças.

Alberto Pereira



ARTIGO DE NUNO MARKL P/ OS TRINTÕES



A juventude de hoje, na faixa que vai até aos 20 anos, está perdida.
E está perdida porque não conhece os grandes valores que orientaram os que hoje rondam os trinta.
O grande choque, entre outros nessa conversa, foi quando lhe falei no Tom Sawyer.
'Quem?', perguntou ele. Quem?! Ele não sabe quem é o Tom Sawyer! Meu Deus... Como é que ele consegue viver com ele mesmo?
A própria música: 'Tu que andas sempre descalço, Tom Sawyer, junto ao rio a passear, Tom Sawyer, mil amigos deixarás, aqui e além...' era para ele como o hino senegalês cantado em mandarim.
Claro que depois dessa surpresa, ocorreu-me que provavelmente ele não conhece outros ícones da juventude de outrora.
O D'Artacão, esse herói canídeo, que estava apaixonado por uma caniche; Sebastien et le Soleil, combatendo os terríveis Olmecs; Galáctica, que acalentava os sonhos dos jovens, com as suas naves triangulares; O Automan, com o seu Lamborghini que dava curvas a noventa graus; O mítico Homem da Atlântida, com o Patrick Duffy e as suas membranas no meio dos dedos; A Super Mulher, heroína que nos prendia à televisão só para a ver mudar de roupa (era às voltas,lembram-se?); O Barco do Amor, que apesar de agora reposto na Sic Radical, não é a mesma coisa. Naquela altura era actual...
E para acabar a lista, a mais clássica de todas as séries, e que marcou mais gente numa só geração: O Verão Azul.
Ora bem, quem não conhece o Verão Azul merece morrer. Quem não chorou com a morte do velho Shanquete, não merece o ar que respira. Quem, meu Deus, não sabe assobiar a música do genérico, não anda cá a fazer nada.
Depois há toda uma série de situações pelas quais estes jovens não passaram, o que os torna fracos:Ele nunca subiu a uma árvore!
E pior, nunca caiu de uma. É um mole.
Ele não viveu a sua infância a sonhar que um dia ia ser duplo de cinema.
Ele não se transformava num super-herói quando brincava com os amigos.
Ele não fazia guerras de cartuchos, com os canudos que roubávamos nas obras e que depois personalizávamos.
Aliás, para ele é inconcebível que se vá a uma obra.
Ele nunca roubou chocolates no Pingo-Doce. O Bate-pé para ele é marcar o ritmo de uma canção.
Confesso, senti-me velho...
Esta juventude de hoje está a crescer à frente de um computador.
Tudo bem, por mim estão na boa, mas é que se houver uma situação de perigo real, em que tenham de fugir de algum sítio ou de alguma catástrofe, eles vão ficar à toa, à procura do comando da Playstation e a gritar pela Lara Croft.
Óbvio, nunca caíram quando eram mais novos. Nunca fizeram feridas, nunca andaram a fazer corridas de bicicleta uns contra os outros.
Hoje, se um miúdo cai, está pelo menos dois dias no hospital, a levar pontos e fazer exames a possíveis infecções, e depois está dois meses em casa fazer tratamento a uma doença que lhe descobriram por ter caído.
Doenças com nomes tipo 'Moleculum infanticus', que não existiam antigamente.
No meu tempo, se um gajo dava um malho muitas vezes chamado de 'terno' nem via se havia sangue, e se houvesse, não era nada que um bocado de terra espalhada por cima não estancasse.
Eu hoje já nem vejo as mães virem à rua buscar os putos pelas orelhas, porque eles estavam a jogar à bola com os ténis novos.
Um gajo na altura aprendia a viver com o perigo.
Havia uma hipótese real de se entrar na droga, de se engravidar uma miúda com 14 anos, de apanharmos tétano num prego enferrujado, de se ser raptado quando se apanhava boleia para ir para a praia.
E sabíamos viver com isso. Não estamos cá? Não somos até a geração que possivelmente atinge objectivos maiores com menos idade?
E ainda nos chamavam geração 'rasca'... Nós éramos mais a geração 'à rasca', isso sim. Sempre à rasca de dinheiro,sempre à rasca para passar de ano, sempre à rasca para entrar na universidade, sempre à rasca para tirar a carta, para o pai emprestar o carro. Agora não falta nada aos putos.
Eu, para ter um mísero Spectrum 48K, tive que pedir à família toda para se juntar e para servir de presente de anos e Natal, tudo junto.
Hoje, ele é Playstation, PC, telemóvel, portátil, Gameboy, tudo.
Claro, pede-se a um chavalo de 14 anos para dar uma volta de bicicleta e ele pergunta onde é que se mete a moeda, ou quantos bytes de RAM tem aquela versão da bicicleta.
Com tanta protecção que se quis dar à juventude de hoje, só se conseguiu que 8 em cada dez putos sejam cromos.
Antes, só havia um cromo por turma. Era o totó de óculos, que levava porrada de todos, que não podia jogar à bola e que não tinha namoradas.
É certo que depois veio a ser líder de algum partido, ou gerente de alguma empresa de computadores, mas não curtiu nada.'
(Nota: ...os chocolates não eram gamados no 'Pingo Doce'... Ainda se chamava 'Pão de Açúcar'!!!)

segunda-feira, 15 de março de 2010

A viúva junto ao rio. -conto de José Luís Peixoto-

É com prazer que vou constatando que as aulas de escrita criativa servem para despertar, quem gosta da arte de juntar palavras. As aulas não fazem escritores, mas ensinam formas de dotar os textos de uma energia que prende o leitor. O tom, o ritmo, a intenção. Lembro-me particularmente de uma aula na "Companhia do Eu", em que se falou de como a repetição de palavras pode muscular um texto, dando-lhe força.

As semanas passaram, fizeram os anos. As semanas são agora os anos.Os companheiros de escrita, homens e mulheres. Os professores, homens e mulheres. Os companheiros e professores, homens e mulheres.
As semanas passaram, fizeram os anos.
Os homens e mulheres, agora amigos.

Por isso, para todos os que me acompanham na Escola de Escrita Criativa, "Companhia do Eu", aqui fica um exemplo do que aprendemos nesse lugar de encontrar sonhos.
Um conto de José Luís Peixoto, "A viúva junto ao rio", que pertence ao livro "Cal", em que a repetição de palavras dá força ao texto.


Alberto Pereira

quarta-feira, 10 de março de 2010

terça-feira, 9 de março de 2010

Mulheres Algemadas



O poema "Mulheres Algemadas" de Alberto Pereira, dedicado ao percurso doloroso que estas tiveram de trilhar ao longo dos séculos, está disponivel no Biblioblogue, blogue da biblioteca da Escola Secundária 3EB3, Dr. Jorge Augusto Correia -Tavira.
Este poema foi o vencedor do Concurso de Poesia (tema livre)
da ACAT em Dez. 2009.

http://estbiblioblogue.blogspot.com/2010/03/8-de-marco-dia-da-mulher.html

segunda-feira, 8 de março de 2010

DIA DA MULHER - "MULHERES ALGEMADAS"


Dia Internacional da Mulher.

Aqui fica uma homenagem a todas as mulheres,
lembrando no entanto, que estas não devem existir como
um calendário onde podemos assinalar o dia em que
os seus corpos podem ser felizes.

Um texto que atravessa os séculos, que fala das feridas que foram,
até a sua revolta construir um lugar de viver.

O poema "Mulheres Algemadas", de Alberto Pereira,
foi vencedor do Concurso de Poesia(tema livre),
da ACAT em 2009

Endereço onde pode se pode ouvir o poema, dito por Zélia Santos.

https://mail.google.com/mail/?hl=pt-PT&shva01#inox/1273bbaba12b236a


MULHERES ALGEMADAS


Ao princípio eram ilhas, silenciosas,
espancadas pelos afazeres quotidianos,
submersas nesse continente masculino bronzeado de ordens.
Depois, devagar,
à medida que a vegetação dos seus corpos foi secando,
revoltaram-se com a ausência de luz.
Com delicadeza ergueram suavemente a voz.
O mundo musculado dos que davam ordens inquietou-se.
Tentaram convencê-las que a sua tarefa era cuidar dos filhos,
espancaram-nas, amordaçaram a clorofila que lhes dançava nas veias.
Chamaram-lhes loucas,
arranjaram até atestados para comprovar tal insanidade.
Vedaram às suas águas a literacia, a educação, a cultura.
Dos séculos herdaram a insularidade obediente da tradição,
a gestação descontrolada,
o cárcere doméstico de quatro paredes
rabiscando sem cessar a veloz extinção do pó.
Enganaram a rotina com metáforas que bebiam
nos brinquedos espalhados pelos filhos.
Quando sonharam ter árvores
no pedaço de terra dos seus corpos,
deceparam-lhes os poemas dos ramos,
meteram-lhes grades nas mãos,
porque o trabalho traz independência,
aniquila a submissão.


Tiveram como legado
a biografia desflorestada dos desejos,
a repressão da sensualidade,
a ancoragem no medo.
A tempestade era o único beijo que conheciam
porque os homens
lhe canonizaram o Inverno na alma.
Mas uma ilha sensível sabe esperar,
avança lentamente por entre os espartilhos da liberdade.
Um dia cansadas juntaram-se,
floriu um arquipélago.
De arco-íris em punho,
assoaram a delicadeza ao sangue
e rumaram ao proibido.
Com o fôlego exausto de cativeiro,
incendiaram a voz
porque o tempo sempre foram homens embarcados no céu.
Romperam o exílio do próprio brilho,
afogaram o preconceito
e de têmpera a têmpera açaimaram as nuvens
porque não queriam mais ouvir a neve ladrar.

Hoje, gritam ao abismo imposto,
arregalam os olhos à sombra
e a claridade que sempre tiveram nas cabeças
começa a alumiar o mesmo diâmetro que o sexo oposto.

Mas não se iludam,
o velho continente ainda usa máscara.

Alberto Pereira

sábado, 6 de março de 2010

I PRÉMIO DE POESIA "O BACALHAU"



Decorreu ontem à noite no Mar Adentro Café, o lançamento do 7º número da Revista Callema. Num ambiente descontraído, juntaram-se pessoas que gostam da arte de escrever. Que o fazem, não por lucro, mas porque literatura lhes continua a escrever os corpos.
Foram também revelados os premiados do I Concurso de Poesia "O Bacalhau".

1º Prémio - "Firmamento", de Ana Isabel Rodrigues Jerónimo

Menção Honrosa

"a praia e o depois e depois", de Paulo Serra

"Guernica", de Alberto Pereira


Júri

Rui Almeida (Poeta)
Ilídio J.B. Vasco (Representante da Cooperativa Literária)
Rebeca Hernández (Docente da Universidad de Salamanca, tradutora e ensaísta)

I PRÉMIO DE POESIA "O BACALHAU"

quinta-feira, 4 de março de 2010

I PRÉMIO DE POESIA O BACALHAU ENTREGA DE PRÉMIOS



Dia 5 de Março, no Mar Adentro Café, na Rua do Alecrim 35, Lisboa, será feita a entrega do I Prémio de Poesia "O Bacalhau". Será também apresentado o Nº 7 da Revista Callema onde são publicados os 3 poemas premiados.
Basta aparecer.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Corpo de trevas



Naquele dia em que a evidência saltou mais cedo da madrugada
floresceu no meu corpo o sobressalto.
Era Agosto, remara noite dentro por um rio escuro
embalsamado de medo e nas águas nocturnas vi-te boiar no
branco trágico do céu.
Desconhecidos enrolavam-te em mágoas, ciclones carcomiam-te
as plácidas lembranças dos desejos, suspiros moribundos
entoavam estrondosos no terror das expectativas.
Fazia já algum tempo que os meses entornavam uma espantosa
desolação sobre a alma, essa que orvalhada de simplicidade se
deixou enganar pelas mãos nodosas da fé.

Mãe,
quando te vi, estavas edemaciada de sombra,
olhar ulcerado na neblina, coração feito tormenta.
Lia-se em todas as esquinas a serenidade geneticamente exilada
nas garras ímpias da decadência.
Sonhos desfeitos espreitavam a falésia escarpada do inatingível.
Havia palidez inconsciente na existência e um clarão a
murmurar a névoa que não entendia.
Ordenhei a incompreensão, paralisei o desespero e falei-te sem nada dizer,
mas estavas já debruçada sobre a sedução venérea do degredo.
Degluti desabrigo e com a seiva íntima da coragem esculpi o
apelo que desmentisse a tua desistência.

Quis dizer-te naquele momento tudo o que o egoísmo queimou
no calor frenético dos dias. Mas o sofrimento audacioso
decapitava-te já a respiração
e sobre a fulgurante agonia desfaleciam léguas de ilusão.
Peguei-te e corri pelos escombros do destino até onde te pudesse
resgatar da catástrofe.
Senti como nunca o sedimento estéril do instante,
o equívoco intemporal dos desejos, o êxtase precário da eternidade.
De súbito o mundo parou.
A imobilidade segregou o hálito macabro do fim.
Morri nessa tarde na metamorfose estival das emoções,
submerso na tua ausência vitalícia.

Alberto Pereira

Poema do livro "O áspero hálito do amanhã"

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Véspera da felicidade



Escrevo no coração
as memórias das mulheres que ainda sinto
e no movimento involuntário das sensações
vou baloiçando na inconsciência do sentir.
Nos corredores da decadência
aperto a Primavera nos braços,
prolongo o hábito único de sonhar.
Tiro fotografias ao prazer
e revelo os sentimentos na penumbra da dor.
Releio as ilusões com o crepúsculo do olhar,
esmago a mágoa com a força da loucura.
Beijo o desassossego
e sinto-me na véspera da felicidade,
como se o amanhã fosse um invólucro selado
escondido no infinito de mim mesmo.

Alberto Pereira

Poema do livro "O áspero hálito do amanhã"

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O dia de vidro



Vêm tripulações
agasalhadas em naufrágios.
Do porão nocturno
evaporam-se mentiras
que fizeram escala na ambição.
À proa o olhar electrificado
e a rigorosa geada cerebral
a embater a estibordo do coração.
Marinheiros com o tempo
depilado na memória
a navegar sonhos atracados na respiração.

Tremem,
adivinham o delírio luminoso
a cravar anzóis na transparência.

Alberto Pereira

Poema do livro "O áspero hálito do amanhã",
baseado no quadro "O dia de vidro" de Erich Heckel.